COSTURA URBANA: BORDANDO AFETOS

Linhas, tecido, costura… palavras comumente usadas nas conversas entre vizinhos nas portas das casas brasileiras, em especial nas periferias que ainda mantêm essa prática de aproximação casa-rua e as relações afetivas decorrentes dos encontros cotidianos.

Em paralelo às conversas de pé-de-porta, mergulhamos no mundo das pessoas que teorizam, pensam, discutem e “fazem” a cidade: os arquitetos, urbanistas, engenheiros, geógrafos… e no vocabulário voltamos a ouvir com frequência as mesmas palavras: linhas de conexão, linhas de ônibus, linha de metrô, tecido urbano, malha viária, costura urbana…

E nós, artistas, ali no meio, nos “entres”, no alinhavado, buscando COSTURAR essas relações e conectar os “fazedores” cotidianos das cidades àqueles que diariamente levantam da cama e estão nas ruas (inter)agindo e, através do afeto, construindo o espírito do lugar (genius loci).

Assim, a partir da prática cotidiana do bordado, buscamos misturar artesanias e tecnologias, teorias e práticas, conhecimento vernacular e conhecimento acadêmico, centros e periferias, e tecer uma rede de afetos, construindo assim uma CARTOGRAFIA AFETIVA. Como lugar de partida, escolhemos o bairro do João Cabral, localizado em Juazeiro do Norte/CE.

A _ _ _ _ _ _ _ INTERVENÇÃO _ OFICINA _ EXPOSIÇÃO

O projeto COSTURA URBANA: BORDANDO AFETOS parte da ideia de ser uma intervenção urbana temporária e itinerante dentro do bairro do João Cabral para junto com moradores e passantes construirmos uma cartografia afetiva do bairro guiados pelo desejo de descobrir: quais os principais lugares que compõem o imaginário popular? Quem são e onde vivem os atores sociais que mais aparecem nas histórias dos moradores? Quais são as redes de microeconomia que constituem a vitalidade urbana do bairro? O que os moradores mais identificam como elementos da identidade do bairro?

Os artistas montarão uma mesinha de bordado livre com o mapa do bairro e através de conversas e contribuições dos moradores ou pessoas passantes esse mapa vai ganhando novos elementos: linhas, nós, pontos… Com a intenção de levantar a discussão sobre a tecnologia e as formas de fazer serão ministradas oficinas introduzindo os participantes no conceito de eletrônica têxtil. Em paralelo acontecerão oficinas para botões, componentes eletrônicos como luzes LED, resistores, baterias…

Todo o processo da intervenção durará um mês e será documentado através de vídeos e fotos e ao final da intervenção os artistas montaram a exposição que será uma instalação artística na galeria do X andar do Centro Cultural Banco do Nordeste. Terá como suporte o tecido, fotos, vídeos apresentando o processo, relatos dos participantes, etc.

A proposta parte da tradicional prática que atravessou gerações de mulheres em que bordar, costurar ou fazer crochê em grupo surgia como uma atividade social muito comum. Muitas mulheres, bem como homens, têm resgatado várias dessas técnicas têxteis em abordagens artísticas contemporâneas que por vezes também se misturam a outras técnicas como fotografia, colagem e pintura. Com o surgimento das linhas condutivas, os circuitos eletrônicos ganham a possibilidade de extrapolar as placas e fios, passando a existir também em tecidos e papéis. Esse trabalho foca nos circuitos de LEDs e amplificadores para criar uma série de quadros que misturam bordado livre, fios, componentes e linhas para criar desenhos que transitam entre a ilustração e a escultura, mas que também apresentam funções como acender luzes e tocar sons a partir de sensores de interação.

ALGUMAS _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ IMAGENS

O _ _ _ _ _ _ _ _ _ JOÃO _ CABRAL

“O bairro de pés descalços, fios emaranhados flutuantes sobre as casas com paredes compartilhadas, intimidades reveladas nas roupas à vista, estendidas no varal improvisado, no João Cabral é possível encontrar grandes mestres da cultura popular desfrutando um copo de café passado na hora por suas comadres, sentados nos meios-fios enquanto contam engraçadas histórias de apresentações que fizeram fora dali.” (Revista Cariri, edição 30, p.66)

Nesse mesmo bairro, localizado em Juazeiro do Norte, é possível encontrar vários grupos tradicionais, do reisado ao bacamarte. E, contraditoriamente a essa cotidiana efervescência cultural, quem escuta falar do bairro se depara com o ESTIGMA da violência, situação que se repete em várias localidades das cidades brasileiras decorrentes de processos de marginalização, de exclusão e de segregação sócio-espacial.

O projeto visa (re)costurar esse tecido urbano através das relações de afeto das pessoas para com os lugares onde vivem, caminham, conversam, compram, vendem e sobrevivem, construindo uma cartografia afetiva bordada pelos próprios moradores em parceria com os artistas e levar o João Cabral para o conhecimento de quem tem a sensibilidade de se permitir conhecer os outros lados de um mesmo território.

O _ _ _ _ _ _ _ _ VÍDEO

LINKS _ _ _ _ _ _ _ REFERÊNCIAS

EL TEJIDO URBANO:  https://cargocollective.com/lizkueneke/The-Urban-Fabric-El-Tejido-Urbano

HAPTIC CITY: https://hapticcity.wordpress.com/

ESDi Escuela Superior de Diseño: https://www.facebook.com/ESDiEscolaSuperiordeDisseny/photos/pcb.1665526383501567/1665524510168421/?type=3&theater